Quantos filmes a gente vê que marcam de tal maneira a mudar uma concepção de linguagem? Que nos ensinam que há, ainda e sempre, novos caminhos a se seguir, mesmo nesse ramo tão saturado de soluções que chamamos de arte? Quantos? Quando sabemos que o que estamos vendo é um desses filmes? Na hora ou depois? Na primeira, na segunda ou na nona vez?
Ano retrasado dormi assistindo “Mal dos Trópicos” no Festival do Rio. Pesado. A cada momento que acordava, estava no meio da floresta, perdido. Saí do filme sem entender direito o que havia se passado comigo ali. Dois dias depois entendi que acabara de ver uma obra-prima absoluta.
Terça aconteceu algo parecido.

Filme do Dia: “Serras da Desordem”, de Andrea Tonacci, 2006
Vi “Nanook, o Esquimó” pela primeira vez este ano. Achei lindo, primoroso. Percebi algumas coisas esquisitas, um iglu que parecia um cenário, e algumas cenas que pareciam montadas. Mais tarde descobri que eram mesmo, e que Flaherty havia encenado todo o “documentário”. O tal Nanook sequer vivia naquelas condições à época da realização do filme.
Isso acentuou uma convicção que eu tinha há muito de que o cinema é uma pura mentira. Claro, muitos concordam comigo quando se trata de qualquer filme de “ficção”, seja um James Bond mentiroso ou um ultra-realista “Bruxa de Blair” da vida (depois de desmascarado, claro). Agora, a discussão acerca da veracidade presente no gênero intitulado de Documentário é longa. Longuíssima. Ao longo dos anos, os radicalismos para ambos os lados sempre foram muitos. Uns que acreditam na total verdade do filme documental, na sua capacidade de relatar um fato, de mostrar como as coisas realmente são ou realmente aconteceram; outros acreditando piamente na mentira descarada do documentário, não raras vezes o comparando à ficção sem muitas diferenças.
Lá no começo desse blog, falei de Jia Zhang-Ke. Falei de “Dong” e “Still Life” e falei ainda de como o cinema moderno se porta diante desse impasse da realidade e da ficção. A encruzilhada, ao mesmo tempo, se separou mais ainda e virou uma estrada só. Enquanto o hiper-realismo toma conta da tela ficcional, a auto-reflexão e a metalinguagem tomam conta do documentário. É o documental se aproximando do ficcional, a fantasia se misturando à realidade.
E como distinguir um do outro? Como traçar uma linha firme e reta, colocando de um lado estes, de outro lado aqueles? A recente arrancada do cinema nacional ao documentário entende muito bem essa questão, seja em “Santiago” de João Moreira Salles, seja neste “Serras da Desordem” de Tonacci.
Como todo filme inovador, pioneiro, “Serras da Desordem” é imperfeito, vacilante, às vezes tosco mesmo. Algumas encenações beiram a canastrice. Até aí pouco importa, mas o problema é que isso incorre em diálogos explicativos que não se encaixam com o resto da narrativa, ou das narrativas do filme (que são brilhantes exatamente por explicarem muito pouco: é notável que Tonacci não entreviste seu homem-objeto em nenhum momento do filme). A trilha sonora é, sem exageros, brochante. O avião inserido no final é discutível. Jia Zhang-Ke faz o mesmo em “Still Life” e é exatamente discutível igual. Mas como todas imperfeições humanas, físicas ou não, as do filme de Tonacci também dão vida, tornam mais palpável, mais humano, mais vigoroso ainda esse libelo.
Trata-se da história de Carapirú, índio. E isso é tudo que se deve dizer sobre a “historinha” do filme. Começa com Carapirú armando uma fogueira no meio do mato. Planos lindos, composição magnífica. Logo após vemos Carapirú e outros índios de sua tribo armando acampamento, nadando, entre outras “estripulias”. Vai contando a vida dessa tal índio, de seus hábitos, de seu habitat.
Aqui começa a parte onde entrego o filme todo. Quem não quiser ler antes do filme volte depois. Sugestão de Ismail Xavier: veja o filme com olhos “virgens”.
Contradizendo o parágrafo anterior, portanto, conto: o filme segue contando a história de Carapirú: após conflito com homens brancos por terra, Carapirú se separa de sua tribo. Fica só, perdido e à esmo por 10 anos. Até que um dia é capturado, encontrado, acolhido ou coisa que o valha, por uma aldeia. Lá vive tranquilo, apesar de não conseguir se comunicar com ninguém. Enfim, encurtando a coisa, um dia o sertanista Sydney o descobre, vai buscá-lo e o leva de volta a sua tribo. Quando volta, percebe que muito pode mudar em 10 anos.
O impressionante no filme é como ele consegue desenvolver uma relação íntima entre o espectador e Carapirú. E como a linguagem do cinema, de uma plano depois do outro, consegue encadear uma relação familiar, íntima, complacente. E, para isso, Tonacci faz algo primoroso: chuta o balde do discernimento entre real e ilusão, entre encenação e reportagem. São três os momentos incrivelmente mágicos de “Serras da Desordem” (o resto é mágico, mas incrivelmente são 3 mesmo) que, nesse sentido de “chutação de balde”, colocam o filme num patamar altíssimo de inovação, ousadia e maestria:
1- Na hora de ser retirado da vila de “brancos” onde começou a viver, Carapirú foi colocado em um carro. Mas foi só falarem que era pra ir embora e ele saiu do carro bem ligeiro. No filme, há uma re-encenação desse fato, bem depois de ter sido contado. Acontece que, no meio da tal encenação, Carapirú sai do carro de novo. É difícil, pela maneira como tudo acontece, saber se era o ator Carapirú saindo do carro conforme alguém o mandou ou se era o índio Carapirú novamente assustado com o fato de entrar num carro. Não se distingue quem está lá, o que se passa naquele momento em que um homem interpretando si mesmo confunde mais uma vez, o real e o fingido.
2- Mais no começo do filme, creio que logo após Carapirú ter sido encontrado pelos habitantes da vila, estes o cercam, olhando a “novidade”. Tudo muito verossímil, muito verdade. Até que começa um travelling. E não um travelling qualquer, mas um bem devagar, talvez parecido com Tarkovsky. Acho que passa batido pra muitos, de tão pequeno que é, de tão lento, mas pra mim foi uma soco, um tapa na orelha, gritando: “Ô! Se liga aí rapá! Num tá vendo não?!”
(já disse, se não quer saber o fim do filme pare de ler!)
3- A sequência final, primorosa. Após re-descobrir sua aldeia e se sentir novamente isolado, Carapirú tira a roupa e vai pro mato. Parece um novo isolamento, me lembrou até “Mal dos Trópicos”, de Apichatpong Weerasethakul (difícil né?), apesar de totalmente diferente. Enfim, após andar alguns metros de mato, eis que no meio do verde surge um branquelo, que acena para Carapirú. Ao seu lado, um outro cara com uma câmera 35mm. O branquelo é Andrea Tonacci, que começa a dirigir Carapirú na “cena da fogueira” lá do começo. É inacreditável como Tonacci absolve todo julgamento de razão sobre seu filme nesse exato momento. Acabou. Ali não há mais possibilidade de traçar uma linha que defina o seu filme como algo diferente de parcial.
E esse recorte parcial e pessoal de um ser humano sobre outro; esse olhar bem definido, bem enquadrado, bem montado e encenado que uma pessoa dá pra outra; essa maneira de expressar sentimentos, de criar motivos, de inventar razões que chamamos de arte; essa linguagem que chamamos de cinema; esse todo que se engloba numa visão de mundo, numa relação com o mundo, está lá, escancarado à frente de nós, embasbacando qualquer um que tenha a menor percepção de que sua fruição do mundo é exatamente aquilo: um recorte pessoal.
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