A história passando devagar

revchina.jpg

A noção de que o tempo passa rápido demais só se dá por termos uma incrível capacidade de relevar fatos importantes, deixar que as coisas passem despercebidas. É aquele efeito trivial de percepção no qual, quando encontramos uma pessoa diariamente, mal percebemos suas mudanças fisionômicas ao passo que, se ficarmos seis meses sem vê-la, fica fácil perceber que ela engordou, emagreceu ou coisa do gênero.

É engraçado como isso acontece com tudo, absolutamente tudo. Hoje estava vendo jornal enquanto almoçava. O frisson olímpico já começou e, como sempre, os jornais se atém a mostrar as obras, as mudanças na vida local, a espera do início dos jogos. Em meio a tudo isso, um daqueles momentos sublimes que só jornais de meio-dia proporcionam, dado que é neles que as pequenas histórias locais são contadas, as pequenas simplicidades e idiossincrasias das pessoas de uma região (sim, eu me emociono freqüentemente assistindo esse tipo de noticiário). No caso de agora, nem se tratava de uma notícia típica, mas um pequeno detalhe no meio de uma enorme matéria sobre a cidade olímpica de 2008, Pequim.

A matéria ressaltava que Pequim já estaria quase pronta para receber as Olímpiadas. Todas as obras olímpicas estão completas, exceto o principal estádio – que aliás, é de uma arquitetura impressionante. Em meio às preparações para o evento, a matéria citava o fato de o governo chinês oferecer aulas de inglês gratuitas. Vemos, então, dois senhores (um de 72 e outro de 65, creio), aprendendo inglês com uma professora particular.

Eu frações de segundos, muitas coisas passaram na minha cabeça. É meio óbvia a relação com o comunismo chinês, a Revolução Cultural e o Livro Vermelho (nota: o livro no qual o senhor aprendia inglês tinha capa vermelha também). Mas isso não importa tanto. Não sou maoísta e meu julgamento da cena não parte de nenhum posição política firme. A beleza da coisa está em perceber, assim, de uma vez, que o tempo passa mesmo, que as coisas se modificam lentamente, gradualmente e, quando nos damos conta, está tudo absolutamente diferente. É triste, claro, ver que as coisas passam assim, atropeladas e esmagadas, quase esquecidas. Ver que uma nação que um dia lutou por um ideal qualquer hoje pouco se importa com ele (ou que, na verdade, ter um ideal pouco importa). Mas é bonito de ver como tudo se renova. Aquele senhor de 72 anos, que nasceu antes da Revolução Chinesa, que vivenciou toda a longa história do comunismo maoísta, que criou e fincou suas raízes por ali, vendo dia a dia as coisas se modificarem, ele, de todos, era o mais animado em aprender o contrário do que provavelmente ouviu a vida toda.

Para um militante chinês que, congelado nos anos 60 ou 70, acordasse hoje, o absurdo completo estaria vigorando em seu país. Para aqueles que viveram um dia após o outro, nada mais normal. Depois virá a matéria da enchente no Rio, depois a do jogo do Flamengo e depois, sabe-se lá.

destroy_old_world.jpg Cartaz da Revolução Cultural que diz, segundo o Wikipedia: “Destrua o Velho Mundo / Construa um Novo Mundo”

ps: Vejam uma matéria sobre o assunto no site da Globo. Não foi esta a matéria que vi, mas vale também. Note apenas que esta matéria é uma merda.

~ por Fernando Secco em 21 Janeiro, 2008.

2 Respostas to “A história passando devagar”

  1. não se pode reistir às mudanças, mas sim adequá-las, aprimora-las de modo que não se pode haver resistência e tampouco se conformar, causando a decepção pior que é aquela que só vai desiludir a nós mesmos.

  2. não se pode resistir às mudanças, mas sim adequá-las, aprimora-las, aprende-las, ou até se enganar, de modo que não se pode haver distorção, obrigação e tampouco conformação, causando a decepção pior que é aquela que só vai desiludir a nós mesmos.

Deixe uma resposta