“Você precisa acreditar nas pessoas”

Filme do Dia: “Manhattan”, de Woody Allen, 1979
Woody Allen marcou minha vida. Fato consumado. No mês do meu aniversário, tenho que admitir que talvez apenas 2 cineastas me marcaram tanto. O outro foi Charlie Chaplin. Já disse aqui uma vez sobre minhas noites acordado esperando por Chaplin na TV, quando tinha uns 4 anos. Não que sejam os cineastas que mais gosto, ou os únicos que acho importantes, mas ambos são familiares até demais, próximos, amigos quase. Parece que se eu esbarrar com Allen na rua vou falar “E aí, como vai? Vamos tomar aquela cerveja?”. Bom, cerveja não, acho que ele não gosta.
É engraçado como nos relacionamos com pessoas famosas desse jeito. Mas Woody Allen me conforta. Me conforta saber que fez muitos filmes e que ainda os faz. Me renova. Alegra. Ele consegue falar das coisas mais simples de maneira tocante. É talvez um dos poucos cineastas que toque no tema da morte de maneira tão intrigante. Talvez o único que, ao longo de anos, tenha conseguido traçar um painel, um amplo painel sobre os relacionamentos humanos, sobre medos, angústias e desencontros. Mas é também um dos mais calorosos do mundo, um dos mais afetuosos.
E “Manhattan” é exatamente isso. Afeto. Talvez num momento em que Bergman, Antonioni, Vilella, e tantos outros se vão, ver Woody Allen tenha um quê de saudade. Aliás, ele cita Bergman neste filme. Fala (ele mesmo) que é o único gênio do cinema atual (lá de 79). É bonito demais ver isso hoje. E esse afeto que Allen tem pelo cinema, pela vida, contagia. Enquanto ele fala quais são as coisas belas do mundo para seu gravador, dá vontade de dizer que ele é uma delas, de abraçá-lo forte e só soltar no fim do filme, de agradecimento por tudo.
Aí percebo, então, que a estrutura de “Manhattan” ajuda muito nessa construção do afeto. Essa coisa do homem encontra garota, homem perde garota, homem corre atrás de garota; a corrida dele no final, para encontrá-la. O clichê que ele mesmo debocha: “Eu vim correndo. Ia pegar um táxi, mas vim correndo”. De todo o desespero que é típico de Woody Allen, de seu tumor falso em “Noivo nervoso, noiva neurótica” (Ou era em “Hannah e suas irmãs”? Ou em “Memórias”?), de seus desencontros amorosos, de seus medos absurdos e seus diálogos perspicazes, digo, de todos esses lugares comuns dele, algo se diferencia aqui, algo se destaca.
Se Woody Allen também fala das luzes da cidade, sua relação com Chaplin neste filme é muito mais profunda. Isaac (Allen) está perdido na cidade desde o começo do filme. É um ser alheio à ela, apesar de fazer parte inalienável dela. Em “Luzes da Cidade” o Vagabundo aparece na estátua recém-inaugurada. Faz parte da estrutura da cidade, da sua vida nas ruas, apesar de ser rechaçado. Isaac caminha pelas ruas de modo parecido: é parte da estrutura da cidade, começa o filme falando sobre a personagem do livro que escreve, citando como ela é apaixonada por Nova York, como faz parte dela e, como, ao mesmo tempo, representa a degradação da sociedade, sua falta de perspectiva, sua saudade. Não esqueçamos que Chaplin filmou “Luzes da Cidade”, mudo, em plena época do começo do cinema falado. Ele, portanto, também reiterava suas dificuldades de se adaptar ao mundo em constante progressão. Fez uma história de amor tipicamente romântica, com direito a herói altruísta. É claro, o herói de Allen não é tão altruísta assim, mas a história de amor é romântica também.


A sequência final do filme, de longe a melhor sequência que Woody Allen já filmou, escancara essa relação de maneira absoluta, mostra que Allen chora também, sem mostrar lágrimas, mas quase: ele a vê através do vidro, assim como o vagabundo vê a florista. Mas não foge como ele: vai de encontro a ela. Depois de insistir durante o filme para que ela fosse para Londres, se contradiz, diz exatamente o contrário do que disse antes. Está perdido em sentimento, sozinho na grande cidade. Não sabe muito bem o que dizer e, apesar de tantas palavras, a sensação é de que importam pouco. Como em Chaplin, os olhares dizem tudo. Plano e contra-plano, a história de amor típica do cinema. Poderíamos botar as mesmas cartelas, inclusive: ela poderia dizer “Can you see now?”, e ele “Yes, I can see now”; mas o que temos é mais profundo ainda, mais inquietante: ele diz “Seis meses é muito. Você vai mudar…”; ela responde, com uma lucidez impressionante: “Você precisa acreditar nas pessoas”. Se eles não choram na tela, só lacrimejam, do lado de cá é mais difícil segurar.


ótima a comparação com luzes da cidade. o filme do chaplin, embora feito numa época em que a crença no altruísmo e a esperança no amor eram muito maiores, passa a mesma sensação de desolação que em manhatan. tá na cara do vagabundo que aquele amor não vai se realizar, pq, enfim, ele é o que é (apesar de bom, justo, cavalheiro).adoro manhatan mas acho que aquele final revela mto mais uma atidude vaidosa do personagem, do que um ato romântico. já vi esse filme umas 3 vezes e, em todas elas, eu sempre fico com a sensação de que ele quer que a garota fique por puro capricho. ela é linda, novinha, inteligente, e apaixonadíssima por ele, mas dá pra ver nos olhos dele que apesar disso tudo, (e a amargura do filme está tb nessa ironia do destino), ele não a ama. cá entre nós, acho que ele só a procura pq não deu certo com a diane keaton. ( tão humano pular de galho em galho…). qdo a menina diz, com aquela vozinha de criança “vc precisa acreditar mais nos outros”, dá uma peninha…pq ela acredita nos ideais de amor, ela passaria os 6 meses fora só pensando nele. mas vc consegue imaginar o w. a. sem viver outros romances por 6 meses??? rs… mesmo fazendo essa interpretação do filme, eu o acho lindo, porque o personagem dele é mto humano, cheio de imprefeições. usando um final clássico de filme romântico, ele sinicamente mostra que a gente pode mudar de idéia a hora que quiser, mas que nem sempre vai ter o retorno que espera.
ps: os personagens interpretados pelo w. a. quase sempre têm tumores imaginários. em dirigindo no escuro, a cegueira psicológica se dá pq ele jura que tem um tumor no cérebro. rsrsrs…adoro isso!
Os tumores imaginários são ótimos. Acho que é no “Hannah e suas irmãs” que ele imagina o doutor falando: “Vou te dizer onde está o seu tumor e porque é inútil operar”. hahaha
Aliás, todos eles têm tumor imaginário e idolatria à masturbação. No “Bananas” chorei de rir quando ele fala: “Eu devia arrumar um emprego que aproveitasse melhor minhas aptidões. Algo como doar pro Banco de Esperma”. hahahaha
Enfim, sobre o Manhattan: a volta dele é uma maneira de se encontrar também, de se reencontrar, como no Chaplin. A música romãntica que toca, o olhar pasmo dele. Talvez ele tenha decidido voltar à ela pela falha com a outra, talvez seja uma carência dele, mas é extremamente romântico. A fala dela é uma lição de vida pro próprio Woody Allen: que ele precisa confiar mais nas pessoas. Acho que foi pra mim também, eu também preciso confiar mais nas pessoas. É bonito ver como ela, tão novinha, consegue dar uma lição de vida. É um filme mais amargo que uma comédia romântica, usa os clichês dela pra dizer algo mais profundo: talvez mostrar que nenhum ser humano é perfeito, talvez tentar dizer que o romantismo está, na verdade, em lugares inesperados.
Muito bom. A declaração de amor a Woody Allen, essa vontade que uma amigad edfine como “colocar no bolso” e comovente hahah. Compartilho da adimiração.
encontrei o blog por acaso… amei esse post. obrigada!
Obrigado você, Cláudia, pelo comentário. Eu não atualizo aqui faz muito tempo, mas se quiser ler mais textos meus, vá até a Revista Moviola, da qual sou editor e redator (www.revistamoviola.com.br).
Obrigado pelo comentário também Guilgarcia.
Woody Allen é realmente um gênio! Aliás, alguém viu o novo?
Eu gostei.