Um lugar público pra revelar intimidades

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Filme do Dia: “Medos Privados em Lugares Públicos”, de Alain Resnais, 2006

Já disse aqui uma vez que fazer filmes é compor espaços. E, claro, definir como os corpos ocupam esses espaços. É, portanto, extremamente importante entender que o espaço no cinema é variável e inventado. Que ele se define por um recorte, direciona, limita. É impossível pensarmos em ver, na “vida real”, uma pessoa mais à esquerda, mais à direita, fora de foco. Estão todos sempre no centro, quando lhes damos atenção, claro. No cinema (na Arte em geral, mas vamos limitar) é exatamente o oposto que ocorre. A atenção divaga entre um espaço bem marcado. Dentro dele, o da tela, o olhar percorre tudo, vaga, e emerge. Inscrever coisas nesse espaço minúsculo e encadeá-las é tarefa árdua, complexa. E dos agora 112 anos em que isso é feito (ou tentado?) no cinema, Alain Resnais participou de 60 anos dessa construção, se contarmos a partir de “Van Gogh”, de 1948. Mais da metade da vida do cinema, portanto, teve a presença de Resnais, contou com sua contribuição, com sua invenção, com a sua maneira de codificar esse espaço.

Então teremos, de fato, espaços apresentados desde o começo do filme. A primeira sequência é exatamente a de uma mulher visitando um apartamento junto a um corretor imobiliário. E a definição do espaço que será trabalhado em “Medos Privados…” se dá logo ali: ela afirma que a casa foi dividida, que paredes foram colocadas a mais, partindo a casa em pedaços. Aponta uma janela que está presente em duas salas, com uma parede no meio e afirma: “Aqui ou duas pessoas congelam juntas, ou se asfixiam ambas”.

Essa divisão estará presente o tempo todo no filme, em divisórias de vidro, em paredes, em cortinas, na neve. Mas, mais importantes, nos enquadramentos, no foco, no movimento de câmera. Enquanto Resnais prima absolutamente pelas atuações, até pela relação com o teatro que ele desenvolve há anos (aliás, lembro de “No Smoking”, de 93, o único que vi), ele ainda consegue tratar da linguagem de um filme como parte importante. Não sofre o estigma teatral de deixar tudo para os atores, apenas os chama para ajudá-lo a compor, e a emocionar.

Podemos pensar, portanto, “Medos Privados…” como vários movimentos dentro dessa premissa. O primeiro de se definir como melodrama e, dentro desse universo, manter-se fiel dentro dele, no que tange ao que podemos chamar de enredo. Mas ao mesmo tempo reconvertê-lo e transformar tudo isso em algo muito mais leve e indefinido. Se falar de solidão é algo comum hoje em dia, tratar de suas nuances não é tão fácil. Resnais envereda, então, em outro movimento que poderíamos chamar de olhar. Descreve cada pedaço de sentimento com imagens, transita entre esses sentimentos com imagens (os fades-para-neve ao longo de todo o filme) e se deixa submergir por eles, na sequência da última conversa entre Lionel e Charlotte, acerca da internação do pai dele. Sequência, aliás, primorosa nessa imersão. Enquanto conversam, vemos os planos-detalhe mais impressionantes, ligados por cortes “cortina”, enfim mostrando o único espaço que não havia sido dado ao espectador até então. Não só o mostrando, mas dizendo tudo que é possível dizer sobre aquele espaço em poucos segundos; relacionando a cama vazia a todos os minutos anteriores de filme, a todas as pessoas envolvidas na solidão nevada tão explicitada; e ao mesmo tempo dizendo que ainda assim, depois desse frio todo da separação, há o belo calor do humano. Os tais medos, bem íntimos, daqueles intrínsecos à nossa existência, talvez até mais pertinentes à velhice e à solidão, afloram nos tais lugares públicos: na balcão do bar, e o “refúgio” de uma mesa “mais isolada”; na loja com paredes de vidro, o beijo e a cidade passando à vista; na sala que, repentinamente, deixa o mundo frio entrar; na tela do cinema, palco, falsa parede.

É nesse espaço entrecortado, enfim, que Resnais permite a suas personagens um alívio. Não um alívo completo, afinal, mas a idéia de que, apesar das paredes, há as portas, e que as relações que passam por nossas vidas são paradoxalmente inconstantes e surpreendentes, mas possíveis.

O primeiro dos dois planos que coloquei acima é do teto da casa que a mulher visita na primeira sequência do filme. É um plano de tirar o fôlego, inesperado, provocador. Pede ao espectador, logo nos primeiros minutos de filme, que olhe de maneira diferente, inusitada, pois tudo o que verá a seguir esconde algo a mais, revela algo a mais, é complicado e muito simples, afinal.

~ por Fernando Secco em 6 Agosto, 2007.

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