Sobre Jussara, sobre eu mesmo, sobre o eterno e o efêmero
Depois que escrevi o título pensei que poderia ser imaginado (o texto abaixo) como grande pensamento sobre a existência humana, profundo, embasado, generoso e inovador.
Mas não é nada disso. Sou só eu com medo de novo.

Filme do Dia: “O Vôo Silenciado do Jucurutu – Sobre a cineasta Jussara Queiroz”, de Paulo Laguardia, 2007
O que dizer de um filme biográfico? A primeira coisa é perguntar por que fazê-lo? Pra quem? Contra quem? Veja, nada é tão simples que possa ser enquadrado em mera homenagem, em mero apego. Encadear imagens e sons é sempre uma afronta, uma polêmica. Encadear a vida de uma pessoa é, portanto, polemista tanto quanto.
E eu nem sabia quem era Jussara. Depois de ver vários dos meus professores “velhos de guerra”, ainda presentes no cotidiano da Universidade, ainda vivos, falando, gesticulando e lembrando, depois de vê-los falando sobre ela, comentando suas investidas no tal cinema marxista-leninista, dá pra ter uma idéia, dá pra entender que Jussara foi, é, e vai ser. Mas a importância desse documentário não reside na sua estratégia de homenagem nem na sua linguagem. Ao menos não pra mim.
O filme é, honestamente, ruim como proposta de cinema, nada de novo, só aquele velho clichê clássico-narrativo documental: depoimentos, imagens dos filmes dela, crianças, imagens novas dela. O tal depoimento-exposição, mais corriqueiro que plano e contra-plano em novela. Podemos entender que o documentário não tem essa intenção e, portanto, cumpre o papel ao qual se propõe: nos contar sobre Jussara. Tá bom, vá lá. Mas acho que Jussara, descontando o sentimentalismo de ser homenageada, não deve gostar muito do filme, ela que, segundo os entrevistados “sempre prezou a experiência de linguagem, a linguagem ousada”.
Enfim, não é aqui que quero chegar exatamente. Quero chegar no ponto que me concerne e que me emociona dessa coisa toda. Não do filme citado, mas da idéia de se filmar pessoas, de registrar vidas, de contar histórias dessas vidas, lembranças, memórias: está ali registrada Jussara, está ali dito e esclarecido que existiu Jussara, que filmou Jussara, que criou Jussara, que amou Jussara. E agora, dito que foi amada (que é amada). Isso deve ter sido dito várias vezes, mas não gravado e colocado no ramo das coisas eternas. A importância disso, caros, está no fato de que morremos todos. E conosco se vai tudo. Mas e o que fica, o que resta, o que imortaliza? A filósofos restam os pensamentos, a homens de Estado restam os “feitos”, sem julgamentos da minha parte. Mas a marceneiros restam as madeiras que entalhou e modelou, aos pintores (os de parede, claro) restam as paredes, derrubadas ou não. A cineastas, que também lapidam e pintam como trabalhadores desconhecidos, que também pensam e guiam, a eles restam os filmes. Talvez então fazer apenas um filme já é ser imortal, é se vangloriar de ter a si mesmo ali, registrado, contado, quase vivido. Nem que seja só enquanto durar o mundo.
Essa vida vivida a mais, sem sabermos, talvez diminua as sensações soltas de vazio, da certeza de ocaso. Lembro de novo de “A Tabacaria”, de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos, e da idéia que fixa na minha cabeça de que tudo se vai, e é isso e nada mais.
E nós de cinema sempre temos corações grandes o suficiente para lembrarmos de tudo, de todos nós, Quixotes que somos às vezes, Pierrots que somos sempre. Um ano de luto este, tanto pelos grandes Ingmar Bergman, Michelangelo Antonioni e Michel Serrault, tanto pelo menos conhecido mundialmente mas também grande Sérgio Vilella. Talvez essas homenagens e lembranças sejam pouco. E eu, que sou coração por inteiro, me emociono de ver que o esquecimento é inevitável, que um dia nossa existência será irrelevante, inodora, indolor. E lembro, só agora, que os imortais filmes também morrem, nos deixam e nos esquecem. Mas nessa passagem rápida comentam tudo o que vêem, trasformam em eterno cada momento passageiro. É aquele eterno passageiro, que imagina não se sair de um filme incólume, mas também não se sair intocado. Me emociona ver que Jussara existiu, e que eu existo também, para todos nós deixarmos isso tudo pra trás um dia.
Penso, então, que não me importa a cova, a lápide, os ramos, as lágrimas. Talvez fosse mais digno se a lápide repetisse infinitamente um filme desses, sobre quem esteve ali, para que se saiba que foi, o que fez e, mais importante, o que deixou de fazer. Ou talvez, ainda, se fôssemos todos enterrados numa vala comum e que ali se projetasse um grande filme sobre todos nós e que contasse, um por um, a história do mundo.


Oi, Jussara, entre outros, gostava dos cinemas de Godard e Luiz Rosemberg Filho. Mas o documentário valeu como resgate/homenagem de sua memória/existência, não? Até mesmo em Natal ela era (e ainda é) praticamente desconhecida. Um abraço.
Claro que serve como resgate/homenagem, claro. Mas juro que podia ser um pouco mais interessante. De qq modo é bonito ver alguém “como a gente” ser homenageado e lembrado dessa maneira.
Caro Fernando,
Parabéns pela crítica pela crônica poética… O documentário também valeu como denúncia ao descaso aos conchavos politiqueiros que há em alguns setores (festivais)… Resgatou sua memória e mostrou um trabalho importante do ponto de vista social e político esquecido nas prateleiras das fundações de culturas.
Aliás, esse trabalho social e político é cada vez mais abandonado e ridicularizado por realizadores de cinema. Síndrome dos nossos tempos contemporâneos? Talvez…
Caro Fernando Secco,
O que seria um documentário? Um ‘filme’ chato, certo? Resposta esta para as produções comuns, muitas com um chatérrimo narrador por trás ou planos bem lineares, seguindo a cronologia básica. O vôo silenciado do Jucurutu foge totalmente à regra (quando entende-se que documentário é documentário e filme é filme!), prendendo a atenção do espectador até o fim… Talvez eu esteja equivocada ou até desprovida de certa inteligência para entender certos comentários. Confesso que entendi ‘bulhufas’ do que você escreveu. Muitas frases poéticas e palavras bonitas, mas dispensáveis para mim. Mesmo assim, valeu pela iniciativa da crítica a uma produção potiguar, primeiro trabalho de um diretor q já passou dos 60 e que, até então, nada havia produzido, a não ser críticas! Abraços.
Bom Adriana, essa coisa de separar documentário de filme já é complicada, não? Afinal, documentário não é filme? Por que? É tudo audiovisual, não? Tentar traçar uma linha divisória entre o que é “filme” (aliás, o que exatamente vc chama de filme, um filme de ficção?), o que é “documentário”, o que é “programa de tv”… muito difícil isso tudo – fora, claro, se levarmos em conta o meio no qual o material é exibido.
Depois, acho complicado também dizer o que são palavras dispensáveis ou não. Não acho que sou crítico stricto sensus e, portanto, duvido da necessidade dessas minhas palavras serem coerentes e lineares e, portanto, capazes de dotar de sentido o filme do qual falo. São impressões minhas apenas. Então se as escrevo, creio que são indispensáveis, pois só o faço por necessidade de elaborar sensações acerca do que assisto. Não tem nada a ver com entender.
Abraços também!
ps: ah, e nem acho o filme ruim em si, viu?