Quem daria um milhão para ser outra vez Conceição?

Conceição

Filme do Dia: “Conceição – Autor Bom é Autor Morto”, de André Sampaio, Cynthia Sims, Daniel Caetano, Guilherme Sarmiento e Samantha Ribeiro, 2007

A questão do autor na arte sempre foi sujeita a debate. Orson Welles levanta a dúvida de maneira magistral em seu “F for Fake -Verdades e Mentiras”, quando coloca a figura do falsificador, do copiador, como também autor. Confunde suas figuras quando Elmyr de Hory nos diz: “Existe toda uma galeria de Matisses que, na verdade, são todos meus”.

No cinema, essa questão vai muito além da mera especulação sobre a originalidade da obra. Até porque é evidente que no cinema não há original como na pintura: o negativo, material primeiro, não é sua matriz de exibição. Ao contrário, a obra física no cinema é exatamente a cópia. Mas a questão se aprofunda quando questionamos a figura do diretor.

Lá nos anos 60 é que começa a legitimação do diretor como figura autoral máxima de um filme. A contradição da afirmação dessa autoria está no fato de que o cinema é uma irremediável conjunção de criadores, de autores. Desde o roteirista, o fotógrafo, o montador, o diretor de arte, o desenhista de som, até o próprio ator. Ainda assim, o contra-ponto é dizer que o diretor é quem imprime uma unidade à obra, é a alma do filme, orienta toda a equipe e, portanto, é o único que pode assumir a responsabilidade por todo o filme.

Pulando a longa história dessa discussão, chegamos em 2007 com um novo paradigma: o digital. Essa nova era do cinema provoca também uma nova divisão do trabalho: hoje é mais do que possível fazer um filme sozinho, desde sua elaboração até sua finalização. Assim essa figura do autor, figura essa que por influência francesa (via a revista que mais defendeu a figura do diretor/autor: Cahiers du Cinema) tomou o lugar mais alto da produção cinematográfica, essa figura cresce ainda mais, de certo modo, na atualidade. Ao mesmo tempo o movimento contrário, de entender o cinema como obra coletiva, se coloca de maneira forte e agressiva, um libelo pela noção de que cinema é arte de criação múltipla.

E nem que eu queira essa análise pode se dar por completa. Digo, enquanto o audiovisual feito em casa, sozinho, ganha uma força fenomenal, inclusive com a evolução da animação; com os softwares de edição que necessitam cada vez de menos esforço para serem utilizados; com o advento da banda larga e sites como YouTube; com o compartilhamento de arquivos e a consequente facilidade de se estudar cinema e linguagem. Dizia, enquanto a forma de se produzir audiovisual se democratiza, seu espaço de exibição, de contato com o público se esvai. Tanto pela nova “concorrência” entre os “pequenos”, absurdamente grande visto a grande produção digital, quanto pela própria influência do “cinemão” dominador de mercado.

Mas fujo da questão. É claro que essa mudança na produção, esse aumento da produção individual, ou independente, dessa produção barateada, é claro que ela muda a configuração do mercado, é claro que ela força as grandes produtoras e estúdios a repensarem suas estratégias. Mas o que importa aqui é que, vivendo nesse momento de mudanças, onde o cinema autoral ao mesmo tempo se afirma e se nega, está “Conceição”.

Talvez vindo de uma tradição que se perde aos poucos, a do filme de direção coletiva, “Conceição” questiona exatamente onde se encaixa essa figura do diretor. Onde está a autoria do filme e quais são suas consequências. Numa mesa de bar, onde estudantes conversam qual filme devem fazer, se levanta toda a questão/negação do autor com figura magnânima. Desde a criação de personagens e situações toscas, até a saída dessas personagens da história e sua caminhada para o “mundo real”, “Conceição” joga na cara que qualquer pedantismo autoral está fadado à morte. Mas ao mesmo tempo que nega a figura do autor como figura máxima, afirma o cinema independente, “autoral”, por outro viés: o da autoria coletiva, múltipla, recortada. A noção máxima de que cinema não se faz com uma cabeça só, mas com todas elas. No fim, a morte dos estudantes, algo como o suicídio dos diretores do filme, afirma em clara voz (coisa que João Luiz Vieira organiza logo após): que se dane essa coisa de autoria, este filme é de todo mundo e não é de ninguém.

Tenta talvez resgatar uma idéia de que o cinema pode ser um pouco de tudo, um pouco de todos. “Conceição” demorou anos para ficar pronto. Teve problemas financeiros, típicos do cinema universitário. Parece, portanto, que essa noção de cinema coletivo foge ao mercado, exceto quando serve para exacerbar nomes próprios como coletâneas do tipo “Paris Eu Te Amo”. O cinemão já aprendeu a lidar com o autor, e aprendeu a descartar autores. “Conceição”, portanto, é acima de tudo (e isso já está virando quase um jargão publicitário do filme) “um filme de guerrilha”. E é mesmo. Afinal, quem pagaria pra ver um longa de cinco universitários? Um longa em formação, de formação? E ainda mais um longa que se questiona, que questiona sua própria validade como obra de arte. Que, aliás, nega sua validade como obra de arte para afirmar-se apenas como obra.

“Conceição” estréia agora no próximo dia 27. Conseguiu superar a barreira provável do mercado. Está fazendo história pelo simples fato de existir, e pelo fato de se fazer perceber. Resta saber, de todas essas análises alegóricas do cinema e do Brasil que estão no filme, qual o contato que ele terá com o público. Resta saber também se isso interessa realmente.

~ por Fernando Secco em 15 Julho, 2007.

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