Vermelho, vermelho, branco. E a cidade.

Aproveito para convidar meus visitantes ao Festival Brasileiro de Cinema Universitário, onde será exibido o curta PRAIANO, dirigido por mim e mais 4.

Hoje, 13, às 18:00 / Amanhã, 14, às 14:15

Ambas as sessões serão no Centro Cultural dos Correios (Sala de Cinema), centro do Rio, perto do CCBB

Há também a Mostra de Filmes de Bolso do Festival, onde concorre meu curta “A Aparição de Madalena“. Vale a pena ir lá conferir e, claro, votar.

Segue o cartaz do Praiano:

praiano

Assista também os trailers:

Agora, ao texto do dia:

Le Rouge au Sol

Filme do Dia: “Le Rouge au Sol”, de Maxime Giroux, 2005 (curta-metragem)

Há pouco mais de um ano percebi algo interessante. Digo que percebi algo como uma “corrente cinematográfica” que se acentuou recentemente (na percepção da vida isso já estava muito mais arraigado): o tema da solidão, da dificuldade de comunicação, da alienação, da derrota, do desgosto e desesperança perante o mundo, enfim, essa falta de perspectiva tem sido abordada de maneira cada vez mais incisiva por filmografias de todo o mundo.

Poderíamos tentar traçar uma análise mais sociológica da coisa, falar da queda do Muro, da internet, do pós-modernismo, entrando até na questão longa de se o pós-modernismo realmente existe. Mas não. Poderíamos chegar na “morte das ideologias”, e também questionarmos se as ideologias realmente morreram. Mas não. Por outro lado (literalmente), poderíamos analisar o mundo mais uma vez como a dicotomia Socialismo ou Barbárie, como propôs Rosa Luxemburgo lá no começo do século passado. Mas também não. Aqui cabe uma análise mais pessoal, talvez signo representativo dessas dúvidas, dessa encruzilhada contemporânea. Afinal, não é à toa que o filme de Maxime se chame “Vermelho ao Solo”, numa tradução literal, e “Red”, título oficial em inglês (talvez uma referência a “Reds”, de Warren Beaty, 1981…): Maxime trabalha delicadamente uma abordagem extremamente política sem abordar isso de maneira direta.

O primeiro plano do filme (acima) é claro e absoluto: Christian, interpretado pelo brilhante e desconhecido Martin Dubreuil, observa uma construção em andamento. Travelling in, vemos a cerca de metal que separa Christian da construção em primeiríssimo plano. A construção ao fundo, paisagem grandiosa da reviravolta urbana moderna fica fora de foco.

Aí corta para: Christian em uma boate/bar underground, luzes vermelhas. Ele pula, dança e bebe. Corta para: Christian caminha pela rua, gritando, urina em pé, quase caindo de bêbado. Sim, o filme é bastante óbvio. Por situações que não cabe esmiuçar aqui, Christian acaba caído no chão de sua casa de subúrbio, ferido. Sua mãe vem buscá-lo de carro. Ele entra, machucado, diz que os ferimentos não são nada demais. Já na estrada, a mãe diz: “Olha, você precisa me dizer qual a saída que devo pegar”. Logo depois pergunta como ele está. O que se segue é talvez o diálogo mais impressionante que vi este ano. Christian enumera os defeitos de sua vida. Enquanto faz seu monólogo depressivo, a paisagem de neve passa, em contraste com o vermelho presente no filme (apesar de pouquíssimo vermelho se ver em quadro, ele está ali, numa presença física plena, numa sensação. E, claro, nos ferimentos do rosto de Christian). Até que eles ultrapassam um caminhão que remove neve, máquina parecida à do início do filme, mas que agora aponta uma passagem, cria essa passagem. Tudo muito rápido, quase irrelevante.

Chegam enfim ao local que iam. Christian termina sua longa fala. Sua mãe, chocada com a falta de saída apontada pelo filho, tenta talvez amenizar sua dor, talvez dizer-lhe que no fundo ele não está só, que essa luta contra o abandono é dela também. Diz: “Eu também não estou tão bem assim”. Se levantam e caminham na neve em direção a uma loja de móveis. Andam em busca de um lar, de um aconchego. Aconchego este que não pode ser encontrado dentro da cidade, dentro do perímetro urbano que assola o cotidiano de Christian (e aparentemente de sua mãe também). Mas talvez escapando, fugindo pelo descampado branco, talvez exista essa saída. A questão que levanta Maxime, no último e brilhante plano do filme, portanto, é a seguinte: é possível alcançar esse tal aconchego caminhando de braços abertos a uma loja? Digo, é possível comprar o aconchego? Seria a fuga a um antro do mercantilismo moderno uma saída? Christian olha diretamente para a câmera, talvez indagando quem seria esse observador que o vê caminhar em vão. Talvez questionando para que serve sua existência, já que não é trabalhador, não é burguês, talvez se aproxime mais de categoria de lumpen-proletariado. Mas não é nada além de um pária. Fica ali perdido no conceito de classe-média, tão abrangente hoje em dia. E sai. Ficam os carros no estacionamento, ao fundo.

ps 1: É importante ressaltar que assisti “Le Rouge…” pela primeira vez imediatamente após assistir “Alguma Coisa Assim”, de Esmir Filho. É importante ressaltar exatamente pelo escopo completamente discrepante dos dois filmes, apesar de uma problemática parecida. Ambos tratam, de certo modo, do desencanto com o mundo, a perda de rumo. Mas há um contraste claro, evidente. Esmir aponta uma possível saída, um encontro; mostra um universo que se preocupa apenas com os problemas emocionais mais superficiais, ligados talvez à origem social de suas personagens, talvez à origem financeira de seu filme, talvez apenas a uma visão de mundo própria. Maxime também aponta saídas, angustiantes saídas, quase imperceptíveis. O contraste fica mais claro ainda com a ambientação dos dois universos: em “Alguma Coisa Assim”, a boate ultra-requintada, os jogos de luzes, a pequena burguesia e seu labirinto de emotividades; em “Le Rouge au Sol”, o subúrbio, o underground, a meia-idade se aproximando e a vida se distanciando, o descaso, o sangue. Esmir acredita na mudança de paradigma que pode trazer o questionamento dos problemas do coração da “classe-média”. Maxime só acredita na reconstrução das coisas, vistas bem de perto, mas bem de longe.

ps 2: é também importante ressaltar que minha análise sobre o filme não o impede de não ser nada disso. “Le Rouge au Sol” é brilhante por ser simples, direto, duro e, ao mesmo tempo, tocante. Impossível não se aproximar dessa personagem insólita, insípida, perdida que é Christian. Impossível não compreendê-lo. Impossível não querer se esconder quando nos olha no final do filme. Maxime consegue nos contar, em 16 minutos, o que é viver hoje.

~ por Fernando Secco em 13 Julho, 2007.

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