Como, por que falar de amor?

Ouça a música enquanto lê o texto, por favor!

Encontros e Desencontros

Filme do Dia: “Encontros e Desencontros”, de Sofia Coppola, 2003

De todos os clichês existentes no mundo das artes, em todas elas, a história de amor sempre prevaleceu como instrumento básico de aceitação. Parece fácil falar de amor e, com isso, emocionar qualquer platéia, em qualquer tempo, de qualquer idade. Os grandes clássicos do cinema norte-americano são todos pertencentes a essa gama de filmes de amor. E ainda, dentro desses filmes de amor, existem milhões de (mesmas) histórias a se contar. Várias análise sobre o fato apontam alguns clássicos: o garoto que encontra a garota, se separam, têm alguns contra-tempos e depois voltam, felizes para sempre; garoto e garota que se odeiam, mas é aquele ódio de amor, que nós sabemos desde o começo; o casal que, junto, passa por todo tipo de atribulações apenas para demonstrar sua força, sua perseverança.

“Encontros e Desencontros” brinca muito com isso, re-trabalha o tema. Aqui a perda, a atribulação, não se encontram entre o casal. Em nenhum momento eles ousam negar sua atração, sua cumplicidade. Ao contrário. Ao invés de nos apresentar com momentos de afastamento, Sofia nos brinda com seguidos momentos de aproximação, de carinho. Desde a chegada de Bill Murray ao Japão e todos os estereótipos que seguem, do estranhamento com os signos (vide Peter Greenaway – O Livro de Cabeceira) até a engraçadíssima cena em que o fotógrafo japonês fala um monte e a tradutora diz apenas uma frase, dizia, desde a chegada, o estranhamento, a sensação incômoda de não pertencer a nada está ali. Com Scarlett é o mesmo: o marido distante, que só pensa em trabalho; a amiga do marido, esse passado que aparece do nada; a viagem dele e o abandono.

E aí temos dois intrusos, dois perdidos, num bar, sem sequer saber como ou por onde sair. É dessa vontade de se encontrar, de se reconhecer no outro, em um outro, que surge esse amor extraviado dos dois. E ao acompanhar essa tragetória de aproximação, extremamente delicada, sutil, suave, é impossível não se apaixonar também. Pelos dois, digo. Não sei quem é mais carismático no filme mas sei que depois da cena onde Bill canta “More Than This” para Scarlett, é impossível ficar indiferente. É o estigma do plano e contra-plano nos filmes de amor. Duvido que algum homem não tenha se encantado por Scarlett (não por Charlotte, mas por Scarlett mesmo). Digo o mesmo sobre o sentimento das mulheres em relação a Bill Murray, independente da idade. Aposto como nenhuma negaria seu beijo, lá pro final do filme. Nenhuma.

Esses encontros que precisamos tanto, que desejamos tanto, estão lá no filme para satisfazer essa angústia moderna de se perder em tudo, os tais desencontros de todo dia. O filme é sobre o ser estrangeiro mas fala sobre tudo o que é estrangeiro em nós mesmos, à nossa volta, numa cidade estranha ou na nossa cidade natal. Fala sobre morte, pois pede vida a todo momento. Grita por socorro e diz não se desperdiça um carinho desses. É da linha fina que separa o amor e a amizade que fala Sofia. E não fala, mas mostra, induz a sensação de cumplicidade, como se fôssemos os melhores amigos do casal, ouvindo fofocas e causos contados ao telefone, após sua noite inesquecível: “E como pode, num lugar tão distante, tão inóspito, encontrarmos alguém tão nosso?”, diriam.

Como alguém pode perceber essa sutileza da alma, como pode um filme ser tão humano trabalhando na mais velha das histórias? Lembro de tê-lo visto no cinema e quase me levantei gritando “FICA!” quando Bill pega o carro. A cidade passando, tudo indo embora, ficando pra trás, como tudo na vida. E Bill percebe que pode ficar, pelo menos mais um pouco. A famosa corrida de reencontro (clichê recentemente explorado num trabalho de amigos da faculdade, mas que aqui sequer é uma corrida) chega a sua mais bela representação. Ah, como bate forte o coração para que se encontrem, como é lindo seu beijo, seu carinho, essa despedida tão próxima, tão marcante. Depois dali, nada os separa mais, nunca. O filme acaba com a sensação de que dois seres humanos cumpriram seus papéis na Terra: se encontrar.

~ por Fernando Secco em 9 Julho, 2007.

2 Respostas to “Como, por que falar de amor?”

  1. “Esses encontros que precisamos tanto, que desejamos tanto, estão lá no filme para satisfazer essa angústia moderna de se perder em tudo”

    é simples assim. a identificação com a necessidade de completar-se em alguém. numa língua-idioma, num abraço, num silêncio-olhar. e o beijo depois do sussurro. eu sempre pense em coisas românticas. novos encontros, novas possibilidades. lost in translation. todos nós.

  2. sossa como esse filme è lindo ,emociona qualquer pessoa……….

Deixe uma resposta