Voltando
Essa idéia tresloucada de manter um blog diariamente desde seu início tinha um limite. É claro que em alguns momentos eu teria que desistir desse desafio, dessa empreitada bastante laboriosa. A verdade é que gasto cerca de 1 hora por dia por aqui, fora assistir o filme, quando necessário. Não é muito, mas o fato é que o tempo cada vez mais escasso impediu uma dedicação mínima a este espaço nos últimos dias. Não achei que eu iria “quebrar” esse compromisso tão cedo, em menos de um mês. Quebrei a promessa e, logo de cara, por 3 dias seguidos. É algo que não pretendo deixar acontecer de novo, afinal, a pilha de filmes a ver aumenta e, de certo modo, este blog é uma “desculpa” para vê-los.
Hoje, por exemplo, assisti “A Última Noite de Boris Grushenko”, de Woody Allen. Mas, sabe-se lá porque, não me animei a comentar o filme por aqui, apesar de ser engraçadíssimo. Aliás, Woody Allen falando de morte é sempre bom. Aliás de novo, acho que ele sempre fala de morte, não?
Aproveito para comentar sobre as próximas semanas. Segunda-feira próxima começa o Festival Brasileiro de Cinema Universitário. Eu, com filme que dirigi (junto com mais 4) na Competitiva, comparecerei diariamente às exibições. Isso talvez comprometa o andamento do blog. Pretendo mantê-lo atualizado sim, mas até o dia 22 (quando se encerra o Festival), provavelmente não conseguirei fazê-lo diariamente. Vamos ver…
Dêem uma olhada na ficha do curta (“Praiano”) e nas suas sessões e, claro, apareçam: http://www.fbcu.com.br/2007/comp2007_prog01.htm

Filme do Dia: “The Grandmother”, de David Lynch, 1970
Voltando ao filme de Lynch, “The Grandmother”, comentado brevemente aqui no dia 30/jun, é importante perceber como Lynch aprimora sua linguagem ao longo dos anos. Dois anos depois apenas, começa a filmar “Eraserhead”, seu primeiro longa metragem, onde trabalha mais profundamente e de maneira muito mais madura os elementos iniciados no curta.
O uso de monstruosidades, do tal elemento grotesco presente em todos os seus filmes, é talvez o mais importante na carreira de Lynch. Foi até por isso que foi convocado para dirigir o brilhante “O Homem Elefante”, em 80. Em “The Grandmother”, a beleza da simbologia do garotinho que planta a avó é enorme. Aliás, era exatamente por esse elemento que não quis falar muito do filme antes. É tão surpreendente como, após o bizarro “nascimento” da avó, Lynch consegue nos dizer o quanto ela é importante, o quanto ela acalma, o quanto ela salva. Num determinado momento do filme há uma sequência de planos e contra-planos da avó e do garoto que beira o brega, mas consegue se firmar como emocionante. Lynch já sabe enquadrar, desde lá. O enquadramento do rosto da avó vai se repetir muito ao longo da obra dele, até em “Cidade dos Sonhos”, tratando de uma personagem parecida, o avô e avó da nossa personagem principal interpretada por Naomi Watts.
A característica mais marcante de Lynch é, obviamente, sua “tara” pelo mundo dos sonhos, uma provável herança surrealista, apesar de Lynch não o ser. Esse mundo de sonhos, ou melhor, de pesadelos, está em toda sua obra. Logo neste curta, Lynch já começa a desenvolver, num trecho animado, o seu “universo paralelo” de cortinas e chão listrado, de palco, luzes e mistério. Representação essa que volta em diversos de seus filmes, sempre de maneira brilhante, seja “perdendo a cabeça” em “Eraserhead”, seja falando ao contrário em “Twin Peaks”, seja cantando e chorando em “Cidade dos Sonhos”.
E a composição cênica de “The Grandmother”, também feita por Lynch, ajuda a nos colocar nesse patamar de sonho. O garotinho parece um fantasma caminhando nas sombras. A casa não existe, mas mesmo assim não há fuga. Aliás, fato analisar que Lynch é, acima de tudo, um criador de espaços, influência clara da pintura (Lynch é pintor, fotógrafo, cartunista, designer, etc). Poucos cineastas trabalham o espaço cênico de maneira tão incisiva e coerente como Lynch. “Veludo Azul”, obra-prima, é uma composição de espaços do começo ao fim (a cena onde a personagem de Dennis Hopper se apresenta é primorosa).
Essa evolução de linguagem de Lynch que eu apontava é notável. O espaço criado em “Rabbits”, mini-série de 8 episódios feita em digital para seu website em 2002, é composta de 2 planos apenas: são 40 minutos de plano sequência e um corte, assustador. Aliás, “Rabbits” é uma das obras mais aterradoras de Lynch, daquelas de provocar pesadelos mesmo. O espaço é extremamente bem construído: enquadramento perfeito, linhas de atenção, espaço fora de quadro.
Falei tudo isso da obra e carreira de Lynch (uma análise superficial, na verdade) para tentar mostrar como “The Grandmother” é um filme marcante na sua carreira. Apesar de ser mais ingênuo nos seus simbolismos, de revelar claramente um cineasta em construção, aprendendo a lidar com os truques, o curta (ou média?) já introduz elementos de linguagem que Lynch iria desenvolver ao longo de mais de 30 anos, numa carreira que surpreende a cada nova obra. Fica aqui a curiosidade de assistir o novo “INLAND EMPIRE”. Até porque numa entrevista coletiva, foi sugerido a Lynch o uso de camisa-de-força.
O filme, pra quem perdeu o link: http://www.veoh.com/videos/e45033S9qBR6xr


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