Uma vaga introdução
Quase esqueço de comentar aqui. Quem freqüenta o blog e tem um olho mais atento, deve ter percebido que a imagem “de capa” do blog, atualmente do filme “Mundo Novo”, foi, dia após dia, sendo animada. Para quem não lembra, a primeira capa, lá no dia 18, era essa:

É uma prática que pretendo, todo mês, continuar. Colocar um plano interessante, representativo, e animá-lo ao longo do mês, aos pouquinhos. Portanto, fiquem de olho amanhã para um plano diferente, o do mês de Julho!

Filme do Dia: “The Grandmother”, de David Lynch, 1970
Lynch é talvez um dos cineastas mais merecedores de um acompanhamento rígido da sua trajetória. Filme após filme, de maneira extremamente coerente, Lynch permanece criando seu mundo próprio, contando suas fábulas dentro desse mundo próprio e, sempre mais fascinante, nos colocando dentro desse mundo.
“The Grandmother” é seu segundo filme. Seu segundo curta, na verdade, depois do brilhante “The Alphabet”, este “sobre” uma menina que têm pesadelos com o alfabeto. Artista plástico por formação, Lynch insere nos dois filmes animações de próprio punho, colocando elementos de maneira nada corriqueira. A animação não entra pra mostrar o que o filme não consegue. Entra para compor. E em “The Grandmother” é de uma percepção artística perfeita. Há duas sequências animadas brilhantes: uma quando o garotinho aparece num palco, outra quando sua avó cava um buraco e o transforma em árvore. É tudo que posso dizer do filme.
Na verdade, posso dizer uma coisa mais: enquanto Lars von Trier parecia brilhante e inovador com sua concepção cênica em “Dogville”, poucos perceberam que Lynch já o havia feito há 30 anos. Conto um pouco da história da realização do filme, presente no longa “The Short Films of David Lynch”. Lynch, que dois anos antes havia filmado o tal “The Alphabet”, ouviu falar sobre a criação do tal American Film Institute. Na época, o instituto lançava uma espécie de edital para realizadores. Era necessário enviar trabalhos anteriores e um roteiro original. Lynch o fez mas, confessa, sem esperança. Se emociona ao contar o dia em que recebeu a notícia que ganhara. “Aquela ligação mudou a minha vida completamente”, diz.
Foi então que Lynch resolveu pintar seu apartamento todo de preto. Só loucos poderiam fazer isso, mas falo desses loucos que acreditam no que fazem, que suprimem qualquer obstáculo pelo bem da sua arte. O resultado é um filme obscuro e, pra variar, assustador. Já apresentando seus elementos corriqueiros, Lynch incia seu trabalho como conhecemos, invertendo a lógica do cinema-narrativo: ele narra sensações e, portanto, a história é só pano de fundo.
E em “The Grandmother” Lynch consegue traduzir uma emoção muito forte: o carinho. Diante de um plot óbvio e trivial, de um garoto perturbado pela família e a conseqüente busca por refúgio, Lynch busca algo mais. Absorve todas as emoções realistas, usa de animação stop-motion, alto contraste, maquilagem fortíssima e atuações teatrais para contar nada mais que uma fábula. Usa todos os signos do absurdo para tratar de um desespero em busca de algo mais. E, como também é corriqueiro em seu trabalho, consegue trazer momentos de beleza sublime tendo em quadro elementos dos mais grotescos.
Pareço bastante vago ao falar do filme pois não quero inserir aqui elementos que adiantem qualquer pedaço dele. Gostaria que vocês assistissem o filme intactos, virgens, inconscientes. Portanto, faço o seguinte, fico por aqui, deixo pra vocês assistirem e, em alguns dias, volto para comentar o filme em sua totalidade.


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