O amor como sintoma do carinho

Filme do Dia: “Cão sem Dono”, de Beto Brant e Renato Ciasca, 2007
Falei aqui que o cinema moderno parece tecer, aos poucos, uma característica marcante: ousa desafiar, de diversas maneiras e por diversos lados, a diferença outrora gritante entre documentário e ficção. E talvez o cinema brasileiro recente tenha essa sabedoria. Saindo hoje do cinema conversava sobre como este filme se parece, em estrutura dramática, com “O Céu de Suely”, de Karim Aïnouz. Parece tecer, entre nuances de personagens; apresentação de momentos íntimos e diálogos naturais, soltos; uma câmera levemente inquieta, que parece demonstrar que ali há alguém que não pretende ser visto; parece tecer, creio, uma rede bastante fina e pouco pegajosa de realidade. Mas que permanece ali do começo ao fim da projeção.
A relação de quebra óbvia da ilusão pela câmera, aquela do zoom rápido, da perda do foco, aparece apenas em um momento do filme. No resto, essa sensação documental, de registro, está presente por outros elementos mais sutis da linguagem. Começa pela conversa natural e quase improvisada dos atores: falas em cima de outras, falas que não se compreende, uma dicção nem sempre impostada. Continua pelo elemento que, recentemente – de uns 10 anos pra cá – têm invadido cada vez mais as representações realistas da ficção: o plano-seqüência. Trabalha com longos planos, com imagens fixas, com a percepção de que, “deixando a coisa rolar” tudo parece mais real, mais honesto. Mas essas imagens fixas não são tão fixas assim. Tremem levemente, junto com o coração do operador de câmera. Até aí nada muito novo, talvez. Mas é o tratamento extremamente simplista da coisa toda que une todos esses elementos em um só e dá essa sensação objetiva de que o vida é “aquilo mesmo, não tá vendo”?
É interessante analisar como a câmera-na-mão cumpre um papel diferente hoje. Lá nos anos 60 e 70, era utilizada para chamar a atenção à câmera, para dizer claramente que havia um cérebro por trás de tudo, um ser humano por trás da ilusão. A câmera explicitava a condição de mentira do cinema. Tremia para provocar o público, distanciar. Hoje, talvez depois do advento das câmeras digitais, do cinema caseiro, da realização acessível e imediata, a câmera-na-mão evidencia o exato oposto. É sinônimo de verossimilhança, de realidade, da afirmação de que havia alguém ali registrando o ocorrido e, portanto, atestando sua condição de fato, de coisa ocorrida. Ainda, os cortes entre os planos, na maioria das vezes feitos por fade-out/fade-in, ressaltam a idéia de que o filme aponta fragmentos da vida de Ciro (nosso protagonista do dia). Divide o filme, cerceia a continuidade óbvia das ações. Documenta ainda mais. Mas ainda assim se consegue perceber a sombra de ilusão que está no filme, percebe-se que se tratam de atores, de uma situação inventada, criada, narrada. O resultado é um filme que ao mesmo tempo se afirma como ficcional mas atenta à realidade da sua narrativa. É como se dissesse, nas cartelas iniciais de uma ficção assumida, algo como “baseado em fatos reais”.
Como história, como coisa narrada, o filme é primoroso. Traça um cotidiano simples de um rapaz boêmio. Boêmio no sentido da ópera La Bohème. Aliás, Ciro invade os três universos artísticos presentes nas personagens da obra de Puccini: a pintura, a música e a literatura. Parece divagar dentro desse universo diletante, buscando uma saída intelectual para questões mais materiais do que consegue digerir. E a personagem feminina, frágil, ou melhor, fragilizada no decorrer da história – assim como em La Bohème, assim como em outros filmes de Brant – assume, na verdade, o papel central. “O Invasor” é sobre Marina (Mariana Ximenes); “Crime Delicado” é sobre Inês (Lílian Taublib); e “Cão sem Dono” é sobre Marcela. É ela quem traz todas as questões intelectuais de Ciro para o plano material, para a realidade. Seja com seu sexo, seja com seu dinheiro, seja com sua doença.
A relação do casal navega calma durante todo o filme. Apaixonados, não travam uma relação de ciúme ou posse ou nada que o valha. Não é tão imaturo assim o amor dos dois, apesar de Ciro negá-lo bem baixinho. E o cachorro que dá nome ao filme apenas apresenta um valor simbólico, mas fortíssimo e nada exagerado: ao final Ciro entende que Marcela não é sua dona, mas sua amiga. E percebe a falta que faz um carinho.
ps 1: O filme deveria ter acabado 2 planos antes, creio. A última fala de Marcela me parece desnecessária, fora de tom. Mas é uma sensação nada pensada. Só pedi baixinho pro filme acabar antes. Durante o plano em que Ciro afirma ter pensado muito em Marcela, eu pensava “Acaba agora, por favor!”. O filme se alongou mais 2 planos e isso me incomodou profundamente. Só vendo de novo pra saber se é válido ou não esse sentimento.
ps 2: Fica aqui o link para Scenes de la Vie de Bohème, livro de Henry Murger de 1851 que inspirou a obra de Puccini e também a de Leoncavallo, para quem quiser consultar. Em inglês.


Já discuti isso com Davi, outro dia. Acho que o diálogo com a Marcela é necessário no fim do filme. Ele também tinha achado despropositado. Talvez essa sensação surja porque a ligação da Marcela tem uma função dramatúrgica. O restante do filme não utiliza desses recursos. É como eu falo na minha crítica (http://www.disruptores.com.br/?p=340) quando ressalto que o filme prima por um hiper-realismo. Aqui você chama de documentário. Enfim, eu acho que o diálogo final é importante porque a Marcela abre possibilidades para Ciro, ela dá a opção dele escolher outra coisa, dele inclusive entender que o que ele quer é que a vida continue da mesma forma.
Sobre esta questão eu concordo com a visão do Aristeu em relação a abertura de possiblidades para Ciro com o telefonema de Marcela, pois é coerente com a história e a volta dela é importante para o desfecho. Contudo o que me incomoda mesmo é a conversa telefônica. Acho um recurso um tanto pobre. E discutindo isso com o Alvaro e a Lígia, surgiu uma teoria (Alvaro) muito interessante, que justifica o telefonema no final, segundo ele a conversa não passa de um devaneio de Ciro, um desejo não realizado. Ela aparece muito bonita nessa conversa, com muita luz e dentro da perspectiva de vida que ele levava a ligação surge quase como um sonho ou coisa que o valha.
Outra questão a se debater é o excesso de fades. Isso me perturbou um pouco. São muitos fades.
Bom, coloquei essas problematizações para no fim dizer que gosto demais do filme. E, por isso mesmo, gosto de apontar os problemas, a fim de dizer que se trata de uma bela obra e como tal tem seus defeitos, pequenas imperfeições. Não é O filme brasileiro, mas faz parte de um conjunto de filme que quando chegam ao circuito eu me alegro e nesse bonde estão: “O Céu de Suely”, “O Ano que meus Pais Saíram de Férias”… Quero ver o filme do Tonacci, afinal ouvi maravilhas a respeito dele.
Grande Davi, essa teoria aí do devaneio eu acho que é viagem. O filme em momento nenhum dá abertura para que se faça essa interpretação. Em relação à fotografia, é normal que o último plano tenha tanto luz. Se você perceber bem, o filme começa muito escuro e pouco a pouco vai ganhando mais luz, vai ficando mais solar. A fotografia reflete o sentimento de Ciro frente à vida. O que no início era soturno, depois vai se tornando mais claro. Não à toa termina com uma reunião de família. Acredito que seja por aí… Eu também não entendi pra quê tanto fade. Abs.
Sobre o final, acho que o diálogo é extremamente importante. Só não consigo entender a necessidade da última frase dela, do convite. Por mim acabava no “Pensei em você”.
Ainda assim, mesmo que possamos analisar que a luz do filme vai se tornando menos “obscura” com o correr do filme (coisa que eu teria que reavaliar, pois não sei se é bem assim), o plano de Marcela na conversa do telefone é completamente fora do padrão de todo o filme, inclusive desacordando com o contra-plano de Ciro na mesma cena. Tanto a luz quanto sua vestimenta (de Marcela), quanto o cenário onde ela está. Causa uma estranheza clara, evidente. Portanto, achar que se trata de uma imaginação é uma possibilidade, ainda que eu não creia que seja coerente com a proposta de um cinema tão “cru”.
Quanto aos fades, acho que são exatamente eles que dão um caráter de registro ao filme. Divide o filme em partes, em segmentos. Quero vê-lo de novo, em DVD, podendo voltar e etc, para poder analisar a sintaxe dos cortes. Reparem que o filme se constrói todo em fades, mas em alguns momentos apresenta cortes secos. Por que? É uma construção temporal que foge a apenas um primeiro olhar. Merece mais.