Fragmentos de Linguagem

Há muitos anos atrás, eu tinha uma mania, que perdi por falta de organização: anotava todos os meus sonhos, e o de quem se interessasse em me contar também. Sem entrar em detalhes sobre o perfil dos sonhos, coisa que posso me ater outro dia, uso essa informação para introduzir um sonho esquisito que tive uma vez.

Sonhava que um homem, famoso, muito conhecido, um homem que vivia em um balão muito grande há anos, viajando pelo mundo, sonhava que esse homem havia decidido se matar. Iria pular do balão, estava cansado do mundo. A notícia era acompanhada pela televisão, que filmava o balão do homem com helicópteros. Um narrador contava sua história de vida, quase como um Épico moderno. Falava em tom grave, místico. As pessoas se sensibilizavam, iam para as ruas, olhavam para o céu, procurando o tal flying saucer.

O homem afirmava categoricamente que, apesar de seus feitos históricos, heróicos, iria pular do balão. Ele se encontrava em pé, não no “balde” de passageiros, mas em cima do tecido do balão, olhava para baixo. E pulava. Silêncio. Acho que foi um momento parecido com o 11 de setembro na TV, apesar do sonho ter sido antes disso. O homem caía e se despedaçava. E os seus pedaços se espalhavam por toda a cidade. E as pessoas, chorando, em procissão, andavam pelas ruas a catar cada um dos pedaços, como troféus, lembranças de que um dia o tal homem existira.

Apesar de eu não conhecer o nome e apenas anos depois vir a descobrir que se tratava de um cineasta, o homem do sonho se chamava Peter Greenaway.

obs: o texto de hoje vai dedicado à Ananda Frazão, que aniversariou nesta segunda e tem paixão profunda por Greenaway. Parabéns, moça.

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Filme de Hoje: “O Livro de Cabeceira”, de Peter Greenaway, 1996

Numa recente reforma curricular no curso de Cinema da UFF, as matérias mais ligadas à Comunicação Social e à Teoria da Comunicação foram cortadas do currículo obrigatório. Eu ainda cheguei a fazê-las e temo pelos novos cineastas que se formam sem ter acesso à esse tipo de estudo, mesmo que apenas inicial. Lembro que lá aprendi um pouco da história da escrita, e do seu papel na sociedade humana. Coisas talvez triviais como a relação de poder entre os antigos escribas e os “analfabetos”; curiosidades como o fato de, originalmente, os algarismos romanos possuírem, entre as linhas de seus desenhos, um número de vértices igual ao seu valor numérico; coisas mais elaboradas como a representação simbólica de uma letra, sua relação como signo formado por convenção social, e sua relação meramente visual.

Peter Greenaway deve ter estudado muito isso. Conhece muito bem o papel da palavra escrita na sociedade, entende muito bem o aspecto visual de sua fruição. “O Livro de Cabeceira” trabalha essa linguagem de signos visuais/escritos do começo ao fim. Aliás, o filme é exatamente isso. Há uma noção tão avançada do valor da imagem como signo que chega a ser desconcertante.

A primeira e mais óbvia demonstração são as legendas presentes no filme. Ao invés de deixar uma legenda “normal”, inserida posteriormente, aquela legendinha amarela ou branca que estamos acostumados, Greenaway nos traz uma legenda dentro do próprio filme, e com a caligrafia e cor de sua letra variando ao longo do mesmo. Só essa presença inquietante da palavra escrita, já incomoda, chama a atenção. Principalmente porque o filme é ligeiramente “cortado” embaixo, criando uma tarja preta que guarda espaço para a legenda.

Outro elemento importante são os signos de escrita japonesa. Estes definem ainda mais claramente a relação entre a palavra escrita e a imagem. Jogam na cara a todo momento o fato da palavra escrita ser tão iconográfica e iconoclasta ao mesmo tempo. Greenaway compõe suas imagens de maneira a tratar dessa dualidade. Entende que cada fragmento de filme é também um signo visual/literário, que compõe suas próprias frases, que começa e termina, se constrói e se destrói. Há poucos momentos do filme onde não há nenhuma imagem sobreposta. Isso quando não existem 3, 4, 5 camadas de imagens, letras, legendas, narrações. Signos sobrepostos, interconectados, construindo um léxico narrativo que não vi em nenhum outro lugar. Trabalha também a idéia de que uma unidade da língua, um pedaço do seu significante, representa exatamente o que deve, e também tudo aquilo que não deve. Em alguns momentos, sua cor importa demais. Em outros, é irrelevante: uma vez inserido na sua construção significativa, pouco importa a cor da sua tinta. O filme oscila entre o P&B e o colorido sem uma razão aparente. No começo parece ser a relação básica entre passado x presente, mas depois joga essa obviedade no lixo. Após poucos minutos de filme, essa linguagem se introjeta, parece ser natural, fácil. Mas existem camadas de informação e de apuro narrativo que levariam dias para se dirimir.

Greenaway, que sabe muito de simbologia, entende também a efemeridade dos seus signos. Os livros se queimam; as letras escritas na pele saem no banho; as escritas por luzes na parede se apagam lentamente; a letra das canções e das falas se esvai aos pouquinhos; o corpo, utilizado como meio de armazenamento de memórias, como guardião de sentimentos, como testemunha da fruição do mundo, morre. Não só morre, como é posteriormente dilacerado para se tornar livro, objeto fisíco presente e eterno. E Nagiko, nossa protagonista, não se agrada. Coloca o livro-corpo embaixo de uma árvore, para que ele floresça novamente, siga o ciclo de passagem da vida, seja passageiro, intangível.

Assistir “O Livro de Cabeceira” no cinema deve ser experiência única. Aliás, acho que o mais justo e mais honroso a se fazer com o filme logo após a projeção seria queimá-lo. Deixá-lo cumprir seu destino simbólico. E nós, em procissão, deveríamos catar seus pedaços e guardá-los embaixo de uma árvore.

~ por Fernando Secco em 27 Junho, 2007.

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