À Deriva

Filme do Dia: “C’était un rendez-vous“, de Claude Lelouch, 1976

André Breton disse, há muito, que não existia ato mais surrealista do que atirar à esmo. Breton foi o grande teórico do surrealismo, seu grande primeiro nome acadêmico e, até hoje, deixa um legado de pensamentos libertários absolutamente perturbadores. Lá na década de 30, junto com Leon Trotsky, já escrevia o tal Manifesto da FIARI, com uma mensagem clara: “Toda a liberdade aos artistas”. E claro, a liberdade, no caso de pensadores marxistas como ele, sempre vinha aliada à contravenção, ao questionamente das convenções da sociedade burguesa (não admira que o Surrealismo sempre foi muito ligado à pornografia). Muitos teóricos marxistas, como Walter Benjamin e Guy Debord, viam o surrealismo como a última tentativa romântica de re-encantar o mundo. A tentativa de, explorando os limites do real, ou melhor, ultrapassando esses limites, dilacerar qualquer amarra que o sistema político vigente pudesse trazer, fosse ele o capitalismo ou o comunismo stalinista, representado pelo realismo soviético (no caso de Trotsky e Breton).

O teórico marxista Michael Löwy, no seu fabuloso livro “A Estrela da Manhã” -onde analisa a proximidade entre o surrealismo e o marxismo – explica também como os surrealistas, quase sempre ligados ao Socialismo, Comunismo ou Anarquismo, viam a questão da organização das cidades: mais uma vulgaridade, mais um afronte à imaginação e à liberdade humanas. Mais uma forma de opressão. A maneira que encontraram de questionar essa organização espacial definida, reducionista, imediatista, “prática”, foi de andar à esmo.

A figura do flaneur, o elegante andarilho que, desde Baudelaire, frui a cidade à sua maneira, foi muito revisitada por esses surrealistas, por esses marxistas. Particularmente por Benjamin, que escreveu seu Das Passagenwerk, atualizando o trabalho de Baudelaire afim de traçar linhas do papel moderno das cidades, de sua organização, de sua organização de classe, burguesa, claro.

Claude Lelouch, conhecido por trabalhar com improvisos, resolve dedicar à questão um passeio diferente. Pega o meio particularmente passível de realismo que é o cinema e usa uma linguagem especificamente ainda mais realista – o plano-seqüência – para registrar um andarilho, um flaneur moderníssimo, em meio à mesma Paris de Baudelaire. E melhor, contraventor como só Breton poderia sugerir. O resultado são quase 9 minutos de hipnose, de percepção labiríntica de um espaço que nos parece comum, natural, mas que ali se revela assustador, gigante, incrivelmente absurdo. Surreal.

~ por Fernando Secco em 26 Junho, 2007.

5 Respostas to “À Deriva”

  1. Engraçado, eu já conhecia esse plano sequência. Mas o vi em um video clipe. Na verdade, todo esse plano é o video clipe. Mas não sei qual banda comprou os direitos dessas imagens.

  2. Snow Patrol. A música é “Open Your Eyes”.
    Tem no YouTube também, se quiser conferir por lá.
    Abraços!

  3. muito bom, Fernando. Cê tem certeza que é o Lelouch que está dirigindo? O cara é louco. Um louco fabuloso, porém doido, quase acerta um pedestre, sobe na calçada, pega a contramão… e vale a pena.

  4. Tenho sim. Digo, ao menos por pesquisas na internet.
    Leia aqui, por exemplo: http://www.imdb.com/title/tt0169173/trivia
    Abraços!

  5. [...] Paulo César é uma personagem fascinante. Desde sua vontade de conhecer o pai biológico até sua fascinação cleptomaníaca por ônibus, talvez até interligadas, unidas pela vontade de fugir, de rodar o mundo a esmo. Adianto o filme pra quem não o viu, quem não quiser ler que pule: o garoto, aos 12 anos, roubou um ônibus e o dirigiu por algumas horas. Repetiu o feito mais algumas vezes, tendo parado na Febem em várias delas. Diz no filme que escolhia o caminho que achasse melhor. Essa noção de andar a esmo, sem rumo, foi pertencente ao discurso de vários surrealistas ao longo dos anos, como meio de transpor os limites óbvios da cidade e de sua organização. Falei algo sobre o tema em um texto no meu blog sobre o filme de Lelouch, C’était un rendez-vous. [...]

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