Impossível não dizer “Eu te amo”, Woody

Filme do Dia: “Todos Dizem Eu Te Amo”, de Woody Allen, 1996
Hoje, antes de ver o filme, estava pensando nos grandes cineastas que acompanham a nossa vida. Woody Allen me acompanha desde pequeno, pois é de longe um dos preferidos de meus pais. Claro que quando eu era criança os filmes faziam pouco sentido pra mim, mas lá pelos meus 14 ou 15, eram tão importantes, tão pessoais. E o gostoso é que ele filma sem parar, e ainda tem seus 30 e poucos filmes na bagagem. Ou seja, dá pra ver até cansar, se é que dá pra cansar.
Este aqui eu vi graças a duas amigas. Uma, singela o suficiente para me indicá-lo, dentre tantos. Outra, atenciosa e carinhosa o suficiente para me emprestar sua cópia, mesmo sendo de sua coleção pessoal. E, percebendo que sempre que falava do filme sorrisos apareciam nos rostos de quem já o havia visto, foi uma escolha natural pra um domingão desse, precisando ser leve depois de tanto Godard.
Pra quem conhece bastante Woody Allen, este filme, como mote, plot, narrativa, traz pouco de novo. História de amor, algumas histórias paralelas, neuroses, etc. Tudo que sempre esteve lá, junto com suas piadas excelentes, como a empregada “nazista” que diz que seu macarrão da Bavária não precisa de molho, pois isso é coisa dos italianos, uns fracos! Hilário.
Mas, também pra quem conhece Woody, é lindo ver as homenagens que, ao longo do filme, ele faz a alguns de seus jazz preferidos. Os números musicais são simples, singelos, cotidianos (a cena do funeral do avô é brilhante). A sequência em homenagem ao Irmãos Marx também e de chorar de rir só pelo visual de Woody “Groucho” Allen, fora claro, a beleza de uma homenagem tão bem prestada. Lembro ainda que os atores só souberam que o filme era um musical depois de assinarem contrato. Woody queria números cantados por “pessoas normais”. Teve que pedir, inclusive, para que Goldie Hawn cantasse pior!
E, apesar da “música-tema” do filme ser triste (“I’m Thru With Love”, imortalizada por Nat King Cole, Coleman Hawkins, Marilyn Monroe, entre muitos), e falar de como “eu estou cansado do amor”, o filme apaixona cada vez mais, a cada minuto. A construção desse desencontro amoroso moderno, típico dos filmes de Woody, chega no sublime na seqüencia final. Digo, não a final mesmo, mas logo antes.
É talvez uma das danças mais bonitas que já vi, mesmo que nenhum dos dois seja tão bom dançarino assim. Enquanto a gente ouve a música, enquanto eles dançam à noite, perto do rio, dá vontade de falar pra Woody Allen viver mais 100 anos, e também de viver mais 100 anos vendo os filmes dele. Woody e Goldie Hawn chegam a um lugar específico, guardado na lembrança do seu namoro antigo. Ele pergunta se ela se lembra da canção que cantavam na época. Ela se lembra, claro, e Woody, que sempre teve muito de Chaplin, aqui também tem um mundo em suas mãos, mas um mundo de amor. E esse mundo sobe e desce e voa e cai, junto com a noite. Os dois então se sentam e conversam, como os grandes amigos que são, como os grandes amantes que foram. Com toda a saudade, com toda a serenidade que só uma relação madura permite, que só Woody Allen sabe retratar de maneira tão fascinante. A câmera vai se aproximando bem devagar, bem devagar eles vão falando sobre tudo. E dá pra perceber toda a bagagem, toda a história de vida. Quem não acredita em amizade perde qualquer convicção. O beijo dos dois apenas sela um carinho sem igual.
Poucos filmes me fizeram chorar tanto.


Ai, Fernando! Muito bom o filme, o texto, e essa satisfação de saber que você curtiu. Você entende agora porque eu digo que esse filme parece um fetiche do Woody Allen?
Muito bom!
Beijinho
O filme é realmente ótimo, mas essa parte final torna ele sublime. Agora, qual filme de Woody Allen não é fetiche?