Cinematorgásmico
Hoje, pensando bem, não sei dizer exatamente quando decidi fazer cinema. Não acho nem que foi um processo súbito, mas uma construção de anos. Minha mãe me conta que, aos 4 anos, eu permanecia acordado, relutante, esperando o início de filmes de Chaplin na Globo. Os filmes começavam tarde e eu dormia pouco depois de algumas cenas, mas não me deixava sequer cochilar antes. Anos depois, assisti “8 1/2″ de Fellini e lembro que isso me marcou. Pouco depois, foi a vez de “Cidade dos Sonhos”, de Lynch. Saí embasbacado do cinema, numa época em que sequer entendia o que era diegese, decupagem ou ainda, mais importante para o momento, catarse.
Não sei também se foram os anos mal sucedidos de Ciência da Computação, convivendo com sujeitos que, todo dia, repetiam em altos brados pelos corredores e laboratórios de computador: “Ah, vida mais ou menos”. Pensei sério: “Porra, tenho uma vida só, que já foi 1/3. E não, não quero que ela seja mais ou menos”.
Ou não, pode ter sido só uma vontade de continuar sonhando, de querer fugir de um mundo mais real.
Ou não, pode ter sido só um acontecido, uma casualidade, uma decisão como qualquer outra.
Ou não, pode ter sido uma decisão sábia e pensada, talvez a única possível.
Ou não, pode ter sido uma rebeldia, uma vontade de dizer que eu queria é mudar a porra toda.
Ou não, pode ter sido amor.
Certa vez, durante as filmagens do curta improvisista “Praiano”, discutíamos eu, Raquel e J.P. Eu, extasiado, comentava como estava gostando daquilo, como cinema podia dar um prazer sexual. Raquel, inconformada, afirmava que nada podia se comparar a um prazer sexual. J.P., gênio polemista e provocador que é, afirmava que ele preferia é tomar sorvete.
Ficamos naquela discussão sobre o que poderia ser melhor, sexo, cinema ou sorvete. E descobri uma convicção minha que até ali passava, não despercebida, mas escondida: eu prefiro cinema.

Filme do Dia: “Torremolinos 73″, de Pablo Berger, 2003
Quando se descobre uma vocação, uma paixão? Digo, em que momento você percebe que deve seguir um caminho e não outro? Por quê? E ainda, será que essa decisão é sóbria, deliberada, ou ela te arrebata de súbito, sem explicação? E ainda, tomada essa decisão, há a possibilidade de arrependimento? E ainda, se há algum arrependimento, de qualquer tipo, ele é mais forte do que sua convicção?
Torremolinos não se pretende uma grande obra filosófica, nem de longe. Foi lançado aqui como comédia barata, com o insosso título de “Da cama para a fama”. Isso por falar de um vendedor de bíblias mal-sucedido (Alfredo), que se vê entre perder o emprego ou entrar no ramo dos filmes eróticos. Mas não quaisquer filmes eróticos: Super 8’s filmados com ele e a esposa atuando, para vender dentro da “Enciclopédia Audiovisual dos Costumes Sexuais do Mundo” (ou coisa parecida).
A premissa já engraçada é tornada ainda mais leve pelas atuações levemente canastronas, e ainda pelas brincadeiras com a descoberta do cinema através do sexo. Digo, Alfredo é convidado pela sua empresa a “trocar de ramo” e, portanto, começar a fazer os tais filmes, já que a venda de enciclopédias vai de mal a pior. Se nega a princípio, mas depois, claro, por falta de dinheiro, acaba cedendo. O engraçado da coisa é que um casal de “experts” é convocado para ensiná-los a fazer os filmes. A mulher tenta tornar Carmen (a tímida mulher de Alfredo) numa esposa sensual. O homem ensina Alfredo a mexer na câmera, e ainda noções básicas de lentes, diafragma, e outras parafernálias cinematográficas.
Mas o homem-da-câmera tem uma coisa a mais para mostrar: Bergman. Cita o cineasta sueco a todo momento, piada ainda mais válida pois os filmes de Alfredo e Carmen serão vendidos imaginem onde: nos países nórdicos, claro. Alfredo começa e continua a fazer filmes pornôs, estudando cada vez mais e cada vez mais apaixonado por Bergman. Até que resolve fazer seu primeiro longa. Claro, inspirado em Bergman. O produtor chefe da empresa onde trabalha compra o projeto e eles partem para a filmagem.
Pulo algumas passagens para chegar onde interessa: em determinado momento, Alfredo é confrontado por mudanças no roteiro, feitas pelo produtor. Este quer deixar o filme um pouco mais “quente”, para poder dar algum retorno em dinheiro. O fato é que a mudança envolve a inserção de uma seqüência pornô com Carmen e o ator do filme, Magnus. Alfredo desiste do filme. Carmen não.
Aí entra o momento interessante. O homem que o ensinou a filmar é chamado para substituir Alfredo nas filmagens, às pressas. Este vai acompanhar a filmagem e, confrontado pela idéia de sua esposa trepar com outro, duvidoso do seu papel naquela cena desconfortável, Alfredo hesita. Fica no canto, irresoluto. Enfim, subitamente, percebe, decide, resolve que o cinema é maior que seu ciúme. Grita ação, grita corta, e descobre: sua convicção é mais forte que seu arrependimento. Ele olha pela câmera e descobre seu novo olho, seu novo olhar, seu novo ser. Externo, distante, técnico. Porém, nunca tão emotivo.


sexo, cinema e sorvete, yeah!