O último minuto da eternidade

(…) e quando se consolidam enquanto memórias, e afirmam que de lá não sairão mais, que não voltarão a se tornar tangíveis, que se cansaram e permanecerão apenas nesse limbo, nessa névoa, quando isso acontece, é porque sua representação física se foi. E só a morte tem a capacidade de transformar as coisas de tal maneira, de inventar uma forma de sentir as coisas que chamamos de saudade.

O que são os livros, o que são os quadros, as fotografias, os filmes, a arte, portanto, senão a maneira mais lúcida de enfrentar a morte, o esquecimento, o ocaso? Mas ainda, como enfrentar essa morte, se ela leva também todo o seu registro? Lembro de “A Tabacaria”, de Fernando Pessoa (Álvaro de Campos, na verdade), onde uma passagem dizia (diz) assim:

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.

Que papel desafiador têm os artistas, que matéria-prima difícil têm que moldar.

Dans le Noir du Temps 3

Filme do Dia: “Dans le Noir du Temps”, de Jean-Luc Godard, 2002 (filme integrante do longa-metragem “Ten Minutes Older: The Cello”)

Parte 3: A Morte

Acho que é nítido perceber que “Dans le Noir du Temps” é um filme sobre a morte. Fico pensando se algum filme que já existiu não foi sobre a morte. Fico pensando se alguma obra de arte já feita não falava sobre a morte. Pensando, claro, na ingênua ou sábia idéia de que a morte é força motriz de tudo, de todos os nossos sentimentos. Pensado isso – filosofia rasa a minha, pois só esse pensamento seria capaz de gerar mil teses – descobre-se que qualquer filme trata de um tema de morte, ou diretamente oposto a ele, o que, claro, o caracteriza como um filme sobre a morte também: desde o filme de guerra, até o filme pornô, ambos lucidamente presentes em “Dans le Noir…” (a imagem pornográfica presente no filme de Godard quase passa despercebida, se confunde com uma imagem de tortura, de abuso. Esse diálogo entre sexo e morte é, aliás, muito pertinente dentro do filme).

Talvez o próprio ato de filmar, de produzir arte, seja falar de morte, seja trazer os sentimentos de desespero ou esperança, todos eles marcados pelo passado de lembranças, que só são doces pois nos remetem a um tempo mais distante da morte; ou pelo futuro de desejos, que só são desejos pois só podemos tê-los uma vez, e agora. Resta apenas ao artista perceber que suas opções são muitas e que seus sentimentos explodem em cada pincelada, em cada fotograma, mesmo que apenas uma vez, mesmo que por apenas pouco tempo, e ter a certeza de que não está sozinho nessa luta.

O primeiro livro que li de Jorge Luís Borges foi “O Aleph” e, pela organização do livro, o primeiro conto que li dele foi “O Imortal”. Lá, Borges nos ilumina. A busca pela Cidade dos Imortais não é uma busca pela eternidade, mas pelo auto-conhecimento, pelo conhecimento da efemeridade das coisas e, ao mesmo tempo, uma descoberta da infinidade da vida.

Aquele parágrafo de Pessoa, na verdade, termina assim:

Em outros satélites de outros sistemas, qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas

~ por Fernando Secco em 23 Junho, 2007.

2 Respostas to “O último minuto da eternidade”

  1. É difícil comentar Godard. No entanto você achou caminhos interessantes para fazê-lo. Mas Godard é tão plural, que acredito que apenas esses dez minutos seriam suficientes para munir o blog de posts até a próxima quarta-feira de cinzas. Godard assassina aquele clichê de que o curta precisa ter uma idéia central, um mote único, sintético. Godard sempre me sensina a fazer cinema. É impressionante como cada fotograma que ele produz é recheado. Não há nada que seja fútil, inócuo.

  2. Pois é. Eu pensei em fazer uma análise plano-a-plano do filme. Mas rapaz, iria dar um post bem grandinho pra cada um… Ou seja, ia levar 1 dia por plano. Bizarro… E eu teria que ver todos os filmes dele antes. Sem dizer que ainda tem o som, as falas, as cartelas. É filme pra ver e rever. Abraços!

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