Uma memória moderna

Toda a Memória do Mundo

Olha, aos poucos me rendo à modernidade, à contemporaneidade. Essa coisa de ficar criando MSN, Orkut, blog, fotolog, e outras coisas que antes considerava juvenis, um convite à exposição desnecessária, hoje penso como uma maneira de se registrar, de se descobrir talvez.

É engraçado como a comunicação de hoje é esquisita e pouca gente percebe. Aquela coisa bem óbvia de pensar que enquanto antigamente os manuscritos eram raros e quem os lia era, de certo modo, privilegiado, hoje se esvai um pouco, com essa coisa de qualquer um ser autor de si mesmo. Digo um pouco pois acho bem claro o tipo de segregação que a palavra escrita ainda provoca, e o tipo de segregação que a internet ainda provoca.

Mas penso que hoje se cria uma nova espécie de biblioteca, um novo registro de sentimentos, um novo acervo. Muito mais amplo, muito mais acessível, muito mais compartilhado. Toda uma memória individual, toda uma série de impressões do mundo que estão muito próximas, muito ligadas. O blog representa isso de maneira simbólica, essa gama de registros escritos. Daí a vontade de criar um. Um registro no tempo, e um registro acessível, público, exposto.

Penso como deveria ser difícil estudar cinema há 30, há 20, há 10 anos atrás! Sem dinheiro não se via nada. E pior, algumas coisas só se poderia ver em mostras exclusivas, em salas dedicadas. Hoje a internet possibilita muito mais. A quantia de filmes inéditos no Brasil que assisti devido à eMule é inimaginável.

Paro aqui de sequer tentar traçar um perfil da internet e da sociedade moderna pois creio que qualquer estudo desse tipo é incompleto, raso. Escrevi esses parágrafos anteriores apenas para tentar reiterar minhas impressões no momento de me aprofundar mais nesse mundo de proximidade-distanciada-virtual.

Fiquei um tempo pensando no nome do blog. Decidi depois de lembrar do maravilhoso filme de Alain Resnais, “Toute la mémoire du monde”, de 1956, segundo o IMDB. Pra quem não conhece, o curta-documental-institucional foi encomendado ao cineasta pela Biblioteca Nacional da França. Nele, Resnais nos fala sobre memória, sobre o tempo, sobre a importância da lembrança e do registro na nossa existência, talvez até na nossa definição como seres humanos. Portanto pra mim, que penso a vida passando a cada segundo, o nome não poderia ser diferente.

Não é, portanto, uma tentativa de realmente abrigar toda a memória do mundo, mas um passo para agrupar toda a minha memória do mundo.

~ por Fernando Secco em 18 Junho, 2007.

3 Respostas to “Uma memória moderna”

  1. Quem é você e o que você fez com meu amigo Fernando? HAhaha.
    Adorei o blog e gostei do pensamento tb. Não esqueça de incluir nas suas memórias do mundo nossos curtas e esquetes que não sairam do papel. Como o curta do Ônibus 32 e “A vida corriqueira de JC”.
    Abraços

  2. Aderiu à pseudo-intelectualidade virtual!! Agora não tem mais jeito mesmo! Brincadeira! Parabéns! Gostei mesmo! Falando de filmes você ao mesmo tempo vai dando indicações para pessoas(como eu) que não fazem cinema mas se interessam muito pelo assunto!

  3. Bonitos textos, Fernando. Principalmente, a proposta é muito boa – nada melhor do que reverter a angústia de ver a vida passar a cada segundo registrando os fragmentos de sua memória. De vez em quando, passo por aqui para ver se esse todo já está mais disperso.

    Beijo,
    Mariana

    P.S.: A imagem de “Mundo novo” é também um fragmento das minhas memórias.

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