Cinema Moderno
Para quem vive de cinema, a memória do mundo é, muitas vezes, definida também pelos filmes que vimos. Parece que assistir filmes nos dá um tempo a mais, nos fazer viver outras vidas, ou experiências a mais. A noção do real se mistura.
Tenho certeza que me lembro de coisas que nunca aconteceram comigo; que vez ou outra me atinge um déjà-vu de algo que nunca me aconteceu; reconheço rostos na rua que nunca vi pessoalmente. Estava tudo lá, no filme. Portanto, nada mais adequado do que falar de memória falando de filmes, das noções de realidade adquiridas através deles, das experiências e anseios. A minha idéia inicial, que tentarei modestamente seguir, é comentar aqui um filme por dia. Talvez não de maneira tão extensa ou profunda ou elaborada, talvez apenas um pequeno parágrafo de suspiro, mas um por dia.
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Filme do Dia – “Dong” de Jia Zhang-Ke, 2006
… e o cinema moderno percebe isso, digo, essa idéia de que a realidade e a ficção se misturam sem distinção, que o contador de histórias e o jornalista podiam trocar de profissão. Se questiona como real, apaga a tênue linha entre documentário e ficção. Debocha dela, ou simplesmente a ignora. Assumindo que o cinema é sempre ao mesmo tempo real e falso, digo, que todo filme é uma mentira mas que todo filme passa sensações reais, flui como sentidos, o cinema moderno deixa de ser um joguete, não é só cinema verdade, não é também fábula, mas se assume como ambos. Num dos planos mais impressionantes do filme, o “protagonista” caminha lentamente por escombros desde lá longe, até chegar por aqui, e a vida vai passando e não se descobre se ela é de verdade ou não. “Dong”, considerado documentário, é um filme “irmão” do longa posterior de Jia Zhang-Ke, “Still Life”. Segundo me consta, uma ficção que se passa nos mesmos locais de “Dong”, com situações parecidas. Zhang-Ke parece entender muito bem o que é cinema hoje. Resta assistir “Still Life”, e isso fica pra amanhã.


Fer,
Isso me fez lembrar uma coisa… A maneira como eu percebo os filmes que eu vejo está claramente, até demais às vezes, ligada ao momento que eu estou vivendo. Mas também o contrário. Muitas vezes me lembro do momento que eu estava vivendo, o que estava sentindo, percebendo o mundo, ao lembrar “É, foi quando eu vi 2046 pela primeira vez” etc.
Adorei o blog. Por favor, mantenha a promessa.
Beijo.
ola qcho que vou ser o primeiro a comentar no blog heheeh é isso aí Jia Zhang-Ke na veia!
Quero fazer cópia desses filmes. Vamos conversar sobre isso.